quinta-feira

Wanda Xavier de Basto, 1922-2004

 

Realiza-se hoje às 13h30m a missa de corpo presente na Igreja da Penha de França, seguindo-se o funeral para o cemitério do Alto de S. João.

 

Morreu na terça-feira, com 82 anos de idade, a Srª Dª Wanda Xavier de Basto.

 

A lei da vida, e da morte, inexorável, já lançara o seu aviso. Mas nem por isso a morte de Dona Wanda foi abalo menor para todos os que, no Sindicato dos Jornalistas, com ela privaram. Não obstante o afastamento físico imposto pelo tempo, a nossa Dona Wanda esteve - está! - sempre presente nesta casa que foi sua, por ofício e dedicação, durante cinco décadas. Na memória de gerações de jornalistas permanece o seu sorriso magnífico e estimulante, o seu entusiasmo contagiante, nos momentos de exaltação. Mas também a temos connosco, nos momentos menos felizes. Quando o desânimo ameaça entrar pela porta, escutamos as suas palavras sábias e solidárias convocando-nos à unidade em torno do essencial, apesar das nossas naturais diferenças. Muito nos recordamos dela até em simples rotinas administrativas ou quando olhamos os valiosos arquivos do Sindicato, herança dum labor incansável e duma generosidade imensa. Wanda Xavier de Basto serviu com lealdade, dedicação e um carinho comovente uma classe profissional e um sindicato que são, por direito próprio, também os seus. Enquanto esteve ao serviço e depois da sua aposentação, acompanhou com interesse cívico e militante a vida do Sindicato dos Jornalistas, o seu processo de democratização e resistência à ditadura, os dias complexos da Revolução de Abril, as transformações do sector e da classe, em particular a chegada e a afirmação das mulheres. Fê-lo sempre num escrupuloso respeito pelas diferenças de opinião e numa vigilante equidistância em relação aos diversos projectos sindicais. Foi infinitamente solidária, mas nunca vacilou na sua postura de independência.

Figura tutelar do Sindicato dos Jornalistas, ao serviço do qual esteve perto de 50 anos como chefe dos Serviços, a Srª D. Wanda Xavier de Basto, ou mais simplesmente «Srª Dona Wanda», conseguiu a rara proeza de, entre os ventos e marés que ao longo dos tempos expuseram a classe a situações de confronto, jamais ter sido parte das lutas que se travaram, sem fazer distinções entre os intervenientes e a todos tratando por igual. Daí que, por diversas vezes, tivesse sido alvo de homenagens que juntaram pessoas diversas (e até adversas) entre si, mas que se encontravam solidárias no respeito e amizade por esta grande senhora. Entre as homenagens de que foi alvo sobressai a sua condecoração, em Janeiro de 1983, no decorrer do I Congresso dos Jornalistas Portugueses, com a comenda da Ordem da Benemerência, pelo então Presidente da República, general Ramalho Eanes.

Recentemente, em 26 de Janeiro de 2002, D. Wanda Basto perfez 80 anos de vida, circunstância que levou a Direcção do SJ a reunir-se com ela num almoço a que estiveram presentes, além de membros dos corpos gerentes, os funcionários do SJ, a maioria dos quais ela recrutou, e um grupo restrito de convidados em representação de várias estruturas de jornalistas ou com estes relacionadas, designadamente a Caixa de Previdência, o Cenjor, a Casa da Imprensa, o Clube de Jornalistas, a Alta Autoridade para a Comunicação Social, a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista e o sócio mais antigo no activo. Mas certamente a recordação mais inesquecível terá sido a que, na altura da sua reforma, em 1992, juntou na Casa do Leão, ao Castelo de São Jorge, muitos dos jornalistas que com ela privaram.

«Há dias, numa daquelas noites de cerrado nevoeiro que ocultou Lisboa da vista das aeronaves e dos anjos, fui jantar ao Castelo de S. Jorge. O que ali me levou foi um convite, gentil, da direcção do Sindicato dos Jornalistas, para participar num jantar de homenagem a D. Wanda Xavier de Basto, a «Dona Wanda», que várias gerações de jornalistas se habituaram a ver e a sentir como uma espécie de deusa tutelar dos seus direitos e deveres. As várias direcções sindicais passavam, no tempo chamado democrático e no outro, sucediam-se as figuras proeminentes que depressa caíam no limbo das coisas deste mundo, mas a «Dona Wanda» permanecia, feminina e inalterável, solícita e dedicada, fazendo sólidas amizades entre gregos e troianos. Pode ter, e deve ter, as suas convicções políticas ou preferências partidárias. Desafio, no entanto, qualquer dos católicos mais sacristas ou dos laicos mais iconoclastas, qualquer dos conservadores mais empedernidos ou dos mais fogozos revolucionários, que passaram pela direcção sindical, a vir a terreiro afirmar que a «Dona Wanda» era dos seus... Inútil e impensável... A «Dona Wanda» era, apenas e só, dos jornalistas. Conhece-os a todos. Sabe quanto vale cada um deles. Distingue-lhes a voz ao telefone, mal articulam palavra. Sabe como se chama a mulher de cada um, quantos filhos tem, as doenças que sofreram, os hábitos do casal. É um computador antes de haver computadores, com a vantagem de ser humana, sensível, delicada. Nas suas orações - a «Dona Wanda» é uma católica praticante fervorosa - há sempre um lugar, distinto e afectuoso, para os jornalistas que ele acompanhou em vida e para muitos que ela viu nascer para a profissão e deixar o mundo. Não creio que haja em Portugal um sindicato que houvesse tido uma alma como esta. Nesse aspecto, ao menos, o Sindicato dos Jornalistas é um privilegiado... Foi por isso que eu subi ao castelo e tomei lugar, na minha qualidade de antigo presidente do Sindicato, na mesa de honra do jantar de homenagem. E fiquei emocionado ao ver algumas das figuras mais irreverentes e temidas da moderna Comunicação Social, reunidas ali, docemente embevecidas, quase a ronronar à volta da «Dona Wanda» que, miraculosamente, se fez ainda mais pequenina naquela noite, para que todos a pudessem abraçar e guardar melhor.» João Coito

Neste dia da sua partida física, que ocorre num tempo particularmente grave para a vida dos jornalistas, rendemos a Dona Wanda uma homenagem que é um compromisso: honraremos o seu legado de militância e de generosidade; prosseguiremos o esforço de unidade que sempre apontou como fundamental; lutaremos tenazmente pelos direitos dos jornalistas, razão primeira deste Sindicato ao qual dedicou a sua vida.

Até sempre, querida Dona Wanda!

A Direcção do Sindicato dos Jornalistas

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